sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O ilusionismo de Welles

O mágico e sua versão mais lúdica. (Foto: F for Fake/1973 )

A obra pseudo-documental F for Fake do cineasta Orson Welles possui majestosas aglutinações de mistérios que giram em torno da fraude a que a arte se expõe, ou é exposta. Em torno de ações, palavras, sentimentos, todos duvidosos, cujos princípios podem ser de fidedigna autenticidade, contudo ter uma projeção de baixo crédito ante quem os analisa. Dessa idéia da argumentação do original dentro das produções humanas, e da ciência da ideologia, traçando, de certa forma, o debate acerca da desconstrução e da questão da sensibilidade, é que o filme se encarrega de, não só mostrar, mas argumentar com o espectador até a sua própria veracidade. Não há o intuito de transparecer o obscuro caminho entre a verdade e a mentira. O que há de objetivo é a exposição da complexidade por trás do que se apresenta como autêntico e como falso, no qual o “analista” deve saber discernir a originalidade dos signos que lhe são captados ou sentidos.

Funcionando como uma espécie de desafio investigatório para o espectador e para as próprias personagens, existe o jogo de percepção, em que as sucessivas tomadas atrativas são os instrumentos para uma possível descoberta do mistério. Isto é, em cada tomada há uma estreita ligação com o curioso, com algo que está para ser desmascarado, quando na verdade tudo não passa de conjecturas, as famosas sombras das cavernas. Nada mais que uma autêntica metalinguagem da qual Welles se apossa, a fim de relatar, através da sétima arte, a verdadeira possibilidade da existência de falsificadores de obras de arte, assim como também, por meio da atuação – portanto, com a ilusão causada pelo ator – a possível existência de que tudo possa ser falso. Mas ele mesmo é quem diz na película que o filme está para começar, não querendo talvez enganar os espectadores.

Esse trocadilho confuso de demonstração do falso pelo falso e da arte pela arte, leva a maiores questionamentos. Afinal, pergunta-se qual a credibilidade disso tudo, considerando qual é a “verdade” dentro das quimeras da arte. Para corroborar melhor com o assunto, transporta-se aqui tal idéia de outras reproduções artísticas de acordo com o que Walter Benjamin afirmou sobre a aura da arte, visto que ela tem relevância com as mais naturais produções: aquilo que é considerado autêntico é intransponível em outras formas, em outros signos, uma vez que se trata de algo singular e inigualável. Isto é a aura.

A obra de arte é inevitavelmente norteada segundo contextos históricos diversificados, tendo em vista a evolução de seu conceito enquanto objeto de retratação sensorial no comportamento humano, valendo-se da liberdade e do que esta pode originar em cada cultura. Em outras palavras, a cultura tem sua tradição, assim como sua forma de expressão. Estando a arte contida em culturas, então ela possui suas peculiaridades as quais traduzirão modificações, gradação da complexidade e outras visões acerca de como o seu retrato possa ser apresentado.

O debate que é extraído de F for Fake é de uma grandiosidade reflexiva, pois há uma gama de interpretações, de culturas no mundo relativista das verdades. E isso depende do conjunto de signos com que se convive, ou seja, do cotidiano repertório, da educação.

Até que ponto a verdade deve ser falsificada ou mesmo desconstruída? Jacques Derrida compreendeu que o sentido de desconstrução, tal como uma releitura de obras significa uma nova versão linguística dada a esta obra. O que, ao invés de ser um ato fraudulento, torna-se uma atitude reveladora que estava escondida nas entrelinhas. Essa é uma maneira de pensar o que o filme deixa para reflexão: as fraudes artísticas podem até estar inseridas na idéia revolucionária do "aquilo que poderia ser". A verdade pode estar nessas recriações. Assim como dizia a dramaturga Susan Glaspell, na personagem Clair Archer, em sua peça O Limiar, “de tudo que flui dentro de nós” é preciso “deixar que venha à tona! Tudo que nunca pensamos em usar para criar um momento – deixar fluir em direção ao que poderia ser! [...] Você ainda não aprendeu que o melhor lugar para se esconder é na verdade? Por que você não me acredita quando eu falo a verdade? [...]”.

Verdades ou mentiras, dependendo da insinuação e do intérprete, até toda a ilusão causada por um mágico vem a ser uma atividade absoluta, portanto verídica. Tratar da arte e de seu valor crível foi talvez o interesse maior de Welles no filme, ainda mais por ela (arte) ter sido retratada nas dúbias formas cinematográficas, mais especificamente do ator em si.

Não diferente do poeta, o ator sabe perfeitamente inibir os seus verdadeiros sentimentos e mostrar-se sob uma óptica altamente carregada de falsidade, até esta falsidade, porém, deve ser um ato fiel – dentro da verdade do trabalho de atuar. O poeta, já dizia Fernando Pessoa,“ finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente [...]”. Portanto, a arte do fingimento é ou não é uma falsificação, uma reprodutibilidade dos retos sentimentos? Essa indagação é como um eufemismo quanto ao papel dos inúmeros falsários - dentre eles Elmyr de Hory e Clifford Irvingos, famosos falsificadores, retratados no documentário- pois não se sabe a intenção, tanto do autor quanto de quem copia a arte. Pode-se enfatizar a hipótese do ensejo pelo mistério do que virá, o mistério de algo com outras visões, não unilateral.

Desde que Platão, audaciosamente, propôs o mundo das idéias entornado por verdades absolutas, chegou-se à análise banal de que por meio do bem, tem-se a beleza e daí a sabedoria e, depois, a verdade. Ao longo da história, foi visto que nem sempre a intenção do bem é feita com verdades em mente. Dessa forma foi preciso mostrar verdade e mentira combinadas, tal como F for Fake realizou, esclarecendo que é assim que elas se mostram – complexas, confusas, duvidosas.

F for Fake (Orson Welles, 1973):


Citações:
• PESSOA, Fernando. Poesias. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997;
• SANDER, Lúcia V. O Teatro de Susan Glaspell. Lúcia V Sander, 2006.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sou um errante e outros tantos

Um garoto e seus tormentos: porque sonho, eu não o sou...(foto: Lèolo/1992)

Ruelas infectadas, lixos espalhados, ratos por sobre os pratos; feirantes ávidos, frutas e verduras pelo chão, entre caixotes e pernas escrotas provindas da multidão; tomates estranhos, vindos de longe, como andarilhos que vão e que voltam, mas que só trazem um azedume, um odor que beira à mesmice da vida, uma vida empacotada pela queda dos não merecidos, de operários esquecidos. Campos que vagam entre os olhares, em câmera lenta, e que fazem tudo parecer mais leve, completamente fora do lugar comum. É de repente que surgem. É de repente que aquele ambiente acinzentado dá lugar ao esverdeado, ao ambiente que vaga nas ilusões e fantasias de uma criança. É tudo muito de repente, como uma mistura de imagens, uma em cima da outra: uma cena, um movimento, um devaneio. E, um passo em falso, já se está no por vir, no imaginário pueril de um Lèolo, entre outros tantos.

Leôlo Lazone, como assim prefere ser chamado, é um garoto que a partir dos 11 anos recruta-se em ser o vigilante capaz de compreender tudo o que se passa na sua conturbada família. Ele sonha em viver fora do que seriam as prisões mentais que abalam seu entorno familiar. Quer ser diferente. Assim se julga. Na verdade, ele vive a sonhar, sempre. Seria uma tentativa de refúgio. Ele quer estar livre daquele ambiente do qual brotara a obsessão fecal de seu pai, as ordens e superproteção de sua mãe, as manias e o medo de seu irmão mais velho, as libidinosas e anacrônicas aventuras de seu avô e as peculiaridades outras de suas irmãs. Era simplesmente isso. Um refúgio embasado na poesia de Réjean Ducharme, encontrada nas páginas de seu livro L'Avalée des Avalés, do qual Lèolo repete uns versos, de tempos em tempos: “Porque sonho, eu não o sou. Porque sonho, eu não estou louco.”

Fosse o real motivo de seu retiro social causado pela suposta insanidade de sua família, fosse pela má condição sócio-econômica a que estava subjugado, o fato é que o menino Lèolo guardava um profundo senso de exclusão no seu íntimo. Sentia-se como que subtraído das suas origens. Na quimera do tomate siciliano, que carrega os espermatozóides de um camponês e que fertiliza a mãe do garoto Lanzone, apresenta-se, de maneira espetacular, o estopim de toda uma vida marcada pelo sentimento de abandono e feixes de uma rara sensibilidade. O abandono se daria da sensação do “fruto” abandonado, de um tomate deixado para trás; a melhor alusão que o garoto pode fazer ao pronunciar o seu suposto e querido lado italiano da família e sua separação das origens. Pois ele estaria naquela fecundação animalesca da mãe com o tomate carregado de espermatozóides. Seu pai, dizia ele, era "o camponês italiano"; sua origem era siciliana. Não seria, pois, um bruto trabalhador fabril, um operário rude, marcado pela acentuada pobreza e pelo meio e seus fatores desumanos que o fizeram padecer da ignorância que tanto o afetava e o afastava de Lèolo.

Era quase uma nítida menção ao tema central do filme: Lèolo, um caçula e seus tormentos. No entanto, o tema não estava somente nos problemas psicológicos que traziam seus familiares - sobretudo seu irmão, Ferdnand, o qual nutria um medo adolescente pela agressão que sofrera e uma mania de estar em forma; ou sua gorda irmã, a qual passava seu tempo entre insetos, lagartos e vermes no porão de casa -, não eram esses fatos o principal desenrolar no mundo do garoto Lanzone. O tema estava igualmente na posição social a qual se encontrava a família de Lèolo: o meio que a formou, que a trouxe àqueles costumes e àquela insipiência. O meio no qual não desejava estar Lèolo, mas que ao mesmo tempo o ajudou, criou-o, e o fez ser crítico de si mesmo e dos seus. Misturava-se a esse meio um mundo que surgiu do único objeto capaz de o “ilhar” da rotina de sua família, o objeto que poderia fazer a diferença entre Lèolo e os seus. O objeto era mais uma vez, e sempre, L'Avalée des Avalés. O livro que o projetou, que o fez pensar (e até demais) e declarar estar num ambiente onde se tecem regras para os “intestinos fedorentos” de seus moradores, regras das quais ele não compartilha, pois ele critica, ele sonha, e por isso não o é. Pois ele não pertence ao ser e ao estar de sua família, no entanto ele a vigia, critica-a, ele não é igual.

Lèolo apenas lê, apenas narra e imagina. Lèolo tem o que deseja. Lèolo tem a sua vizinha; Lèolo tem as mulheres que quer, ele sacia seus desejos com suas imagens, e as projeta em seus sonhos ou em um pedaço de carne! Lèolo apenas sonha, e não o é, tampouco é um desconcertado membro da família. Lèolo é simplesmente isto: o seu por vir. É uma obra completa em si mesma. É um filme que fala por si, é adjetivado em suas sequências: por elas dá a forma e o porquê às suas cenas tão social e psicologicamente esclarecidas. Entre um mundo ideal, esverdeado, um campo longínquo, onde possa correr livre e perfeito, e outro mundo onde se concretizam seus escatológicos e surreais costumes, Lèolo sonha. Mas porque sonha, não o é.


Lèolo (Jean-Claude Lauzon, 1992):
http://www.imdb.com/title/tt0104782/

terça-feira, 16 de novembro de 2010

de um fôlego, uma ode

Um nome, uma vida, uma obra inteira.
O clássico do que continua em nós.


Grande Ludwig!
Tu outrora em solidão
Não foste compreendido,
Tens o brilho e a genialidade das criações.
Inexorável olhar,
Que dissimulara uma alma lancinante.
Não imitavas, mas criavas o ar condoreiro da harmonia lírica.
Foste tu autêntico!

Ludwig... Ludwig...
Tua alma, complexa e inexplicável...
Entornavas uma bruta genialidade
Que atravessou séculos...
Tabuleiro e Forte à ode clássica...
Sublime sonata à lua clara...
Tua alma, insigne rastros de vertigem...
Ambiente poderoso, fabulosa esfinge...
“Mistério em mãos de ferro” e mente hábil...
Bravura sedutora e harmônica.
Tua alma, a liberdade .

Ludwig... Inteiro e solitário.
Untuoso tocar das teclas do piano, feitiço de mãos criadoras.
"Fonte e cabeceira" das mais eruditas canções e sinfonias.
Tua alma, poeta e grande orquestra ao luar.
Ludwig, grande Ludwig!
És eterno mestre,
A primordial das figuras sinfônicas imortalizadas.
Encontravas na brisa das cifras magistrais
O maior recôndito musical,
Porta de abertura ao humilde e austero céu
E nicho das tuas fabulosas ondas sonoras e ignotas melodias.

Tua alma, desconhecida e aclamada,
Faz florir jardins de interrogações...
Sustento basilar da música...
Quem dera eu possuir-me de tamanha audácia
E insegurança segura...

Sim, Ludwig!
Tua alma, temperamento enigmático.
Quero eu me apossar de tuas mãos velozes!
Quero eu me ver em suspenso sarau
Ao tocar os dedos em um piano e deixar soar livremente
Os clássicos “ruídos” de Moonlight.

És rochedo infalível...
Tua alma, flexível e ardente,
Migrará eternamente por entre os caminhos dessa odisséia,
Pela qual permeia o universo clássico...
És cativante e senhor das magistrais adaptações poéticas.
Das tuas ríspidas ações emergia a tua conduta
Magistral e artística.
Inocente, triste, seguro das incertezas...

És o simples,
Tímido despertar.
Valentia heróica e desafiadora de regras.
És grande,
És Ludwig! És Beethoven!












quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Whisky e Leminski

Não fosse isso
e era menos
Não fosse tanto
e era quase

****
qualunque coincidenza
è mera somiglianza
mentre chisciotte pensa
sancho gratta la sancha panza

ogni cosa sia uguale
che il rosso sia verde
l'azzurro sia giallo
e il sempre sia giammai


****
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase [...]


***
a los dioses más crueles
juventud eterna

ellos nos dan de beber
en la misma copa
vino, sangre y esperma


***
[...]Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
eu já disse muito.

***
(Two Madmen)one of them spends his days
kicking lampposts to see if they light up

the second his nights
erasing words
from white paper

every neighborhood has a madman
it takes beneath its wing
not long till I can
be treated for the same damn thing


***
foi tudo muito súbito
tudo muito susto
tudo assim como a resposta
fica quando chega a pergunta

esse isso meio assunto
que é quando a gente está longe
e continua junto

(P. Leminski)


terça-feira, 13 de julho de 2010

Entre existencialismos e moléculas

As múltiplas ações ou comportamentos humanos e toda incerteza que os cerca, isto é, a relação instável entre o “vir a ser” e a consciência humana, a princípio poderia ser determinada basicamente e superficialmente pelas teorias sociológicas. O senso comum não estabelece uma engrenagem consistente que nos faça compreender a relação entre a capacidade de tomar uma decisão e os mecanismos orgânicos microscópicos, ou todas as reações dos processos celulares. O que pode tornar a discussão sobre essa relação mais compreensiva é o que a física quântica afirma sobre as possibilidades no espaço-tempo.

De maneira simples, posso dizer que esse fato é uma constante na natureza. Como não tenho os conhecimentos necessários em física quântica, julgo-me apenas como uma curiosa no assunto. Primeiramente, podíamos nos perguntar como a física quântica pode explicar a nossa consciência ou os nossos atos. Pois bem. O que seria real? Quais as possibilidades que o real nos oferece? Podemos considerar que este “real” é justamente o que podemos enxergar ou o que está dentro de nosso campo de ação/relacionamento. Desta forma, dizemos seguramente que dominamos o nosso real. Baseando-me, então, no que diz o filme Quem Somos Nós - no qual se tece uma verdadeira desconstrução sobre a nossa realidade, o nosso mundo - a nossa realidade, a que percebemos, é tão limitada, quanto é grandioso o que a ciência julga ser o seu o realismo.

"Um realismo científico baseado no mecanismo conjuga-se com uma crença estável no mundo dos homens e dos animais superiores como constituídos de organismos autodeterminados. Essa incompatibilidade radical na base do pensamento moderno responde, em grande parte pelo que há de dúbio e instável em nossa civilização" (WHITEHEAD, 2006: 100).

Inicialmente contraditória, podemos pensar que a idéia da existência de uma partícula (podemos nos considerar esta partícula?) em mais de um espaço e num mesmo intervalo de tempo se torna viável, se pensarmos que qualquer movimento se realiza de forma microscópica e por partes, “quadro por quadro”. Se pudéssemos nos colocar em “câmera lenta”, veríamos que a nossa matéria se multiplica num mesmo segundo. É um exemplo que nos reporta às possibilidades do real. Portanto, aquilo que não está em nosso campo de visão também é tão real quanto o seu por vir, a sua potência em ato, como já dizia Aristóteles. Constatamos que, conforme essa teoria molecular das partículas da matéria - nós enquanto matéria -, o real é muito mais do que o que o limitamos ser. Ele não é apenas o que nos está externo, mas o que nos é interno aos nossos mecanismos biológicos e mentais. A sua abrangência é invisível, por vezes, inimaginável.

Assim mesmo para a vida: as suas possibilidades, as chances que obtemos para nos construirmos enquanto seres humanos mais equilibrados, mais concentrados em nossas mentes e na força que possuímos, fazem-nos entender a grandiosidade da nossa natureza. Segundo Quem Somos Nós e para quem quiser assim se considerar, somos quase que deuses de nós mesmos. Assim, atores responsáveis pelo que acontece e o que se projeta a nós. Se estivermos cientes disso, o princípio existencialista que trazemos conosco é que, se porventura sofremos, ou não sabemos lidar com tantas incertezas, não soubemos utilizar a nossa potência, a capacidade de controle do mundo ao nosso favor. A idéia é basicamente esta. Portanto, são sempre válidos os questionamentos sobre a nossa origem, o nosso poder, a crise a qual nos encontramos, uma vez que podemos interligar essas dúvidas ao julgo de nossa força mental. Nada além de nosso pensamento para “revolucionar” o nosso particular, o nosso universo. Eu diria que é um verdadeiro panteísmo para com o saber e o poder.

O que pensamos, sentimos. Os mecanismos cerebrais acionam nossos pensamentos, que por sua vez acionam nossos sentidos: uma entropia molecular, um verdadeiro caos. É por meio desse caos que os fenômenos acontecem. Ou seja, do ponto de vista científico, “a ordem é redundante, enquanto o caos é informativo”¹ . E nas palavras de Edgar Morin² ,

"[…] cada vida é tecida dessa forma, sempre com um fio de acaso misturado com o fio da necessidade. Sendo assim, não são fórmulas matemáticas que vão dizer-nos o que é uma vida humana, não são aspectos exteriores sociológicos que a vão encerrar no seu determinismo" (MORIN, s/d).

Ademais, existem alguns esclarecimentos (ou confusões) sobre o que podemos chamar de adaptação biológica. Como nos adaptamos a determinadas situações, ou como o nosso corpo reage a elas. A distância que possa existir entre a fantasia e o que vivemos é apenas um estímulo em nosso corpo. Isto que dizer que, grosseiramente falando, somos os mesmos, com os mesmos estímulos (com umas “pitadas” de condicionamentos culturais, é claro). Em virtude de reagirmos, como defesa, a qualquer experiência desconhecida, podemos pensar o quanto nós nos assustamos, se temos um pesadelo, ou o quanto nos deleitamos, se simplesmente pensamos em algo prazeroso. É tudo uma questão de costume ou adaptação da mente e do corpo às nossas ações.

É, pois, importante que pensemos no que a consciência pode gerar. Os pensamentos que nos norteiam podem ser tão favoráveis à construção das relações sociais, quanto o funcionamento do nosso organismo o é. Podemos sustentar, veementemente, que o otimismo é a chave para o nosso equilíbrio e desenvolvimento mental.


¹-DANTON, Gian. A teoria do Caos. s/d. em http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br/artigos20.htm

²-www.mundocultural.com.br/artigos/Colunista.asp?artigo=763

Referências:

• DANTON, Gian. A teoria do Caos. s/d. em http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br/artigos20.htm
• Filme: Quem somos nós?(William Arntz , Betsy Chasse , Mark Vicente, 2005/ EUA)
• PESSOA JR, Oswaldo. A Física Quântica seria necessária para explicar a Consciência?. s/d em http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/Cons.pdf
• WHITEHEAD, Alfred North. “A ciência e o mundo moderno”. São Paulo: Paulus, 2006. p. 100. In PIMENTEL, Ronaldo e OLIVEIRA, Tiago. Argumentos popperianos em favor do indeterminismo científico. s/d. em http://www.consciencia.org/argumentos-popperianos-$em-favor-do-indeterminismo-cientifico

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Memorável Chaplin: o pequeno gradioso

Ao encontrar na fragilidade a façanha do carisma, soube através da pequenez tornar-se grandioso

Um polêmico gênio de sensibilidade aflorada, banhado pela arte do sorrir, do doar-se sem medidas, do ser solidariamente humano com o humano. Esse gênio, poeta das ruas, nasceu num dia de hoje, 16 de Abril! Uma vida que se fez no silêncio visualmente personificado por gestos universais: a figura de um pária. O criador pensante desejou ser o reflexo dos esquecidos, ironicamente através do humor. Humor sofrido.

O criador, Sir Charles Spencer Chaplin, ou simplesmente Chaplin. A criação, Carlitos ou como queiram, Charlie, Charlot, para todos os gostos, tipos, raças e sorrisos. Era este uma solita figura em preto e branco, adornada por um chapéu coco, uma bengalinha de bambu e um terno paupérrimo, apertadíssimo e com calça “balão”. Ah, claro, além de um doce coração de manteiga! Nele, uma energia saltitante, extrovertida, que inesperadamente aparecia em situações atrapalhadas - não se sabe de onde - e ao mesmo tempo tímida, que invadiu telonas do mundo inteiro. A comprovação de toda uma técnica expressiva ainda não vista na época. A imitação de diferentes formas através de um corpinho lânguido. Uma figura diferente.

Assim nasceu o verdadeiro instrumento utilizado por Chaplin para suas críticas e sátiras à desigualdade e à alienação humana. Para ele não havia o que fosse proibido. Era “proibido proibir” os tradicionais chutes nos traseiros daquelas autoridades que o maltratavam - coincidentemente, quase sempre um policial. Sua vida, resumida em filmes. Sua consternação, insurgida de uma infância sofrida, representada pelo cômico. O mistério. Chaplin e Carlitos não eram dois, representavam apenas um. Todos, o imaginário do criador.

No mundo “chapliniano”, uma Inglaterra vitoriana repleta de influência hipócrita a qual o peso de toda autoridade austera se via sobre os pobres, em muito a perfeita diversão dos ingleses. O peso das ricas roupas ornadas, dos rígidos costumes se fazia sentir em suas almas complexas, inebriadas por egoísmo. Para os moradores dos surbúbios londrinos, só restava o enfadonho universo de suas mentes, onde seus sonhos podiam ser verdadeiros. A promessa de uma vida melhor. Sobre esta Inglaterra, há exatos 121 anos, Chaplin nasceu.

Seu espírito de sonhador, mais sensível do que racional, ser-lhe-ia o motor suficiente para sua arte. Alçar voo à desconhecida América lhe seria um desafio e também a vitória sobre a vida reconhecidamente miserável que teve, em termos materiais. Chaplin tão fácil não se abalou com as dificuldades que encontrou em terra estranha: perseguido por seu espírito irrequieto, polemizou a própria vida por suas preferências amorosas - mulheres bem mais jovens -, seus filmes intrigantes - sempre com um profundo caráter político-social -, assim como suas sinceras declarações contra o sistema da época.

A contradição em pessoa. A contradição presenciada no seu estilo de encarar a vida, tal como em suas palavras que apelavam para o eterno sorriso, para que se não deixassem vencer pela tristeza. A contradição presenciada num peculiar humor capaz de retratar o sofrimento de inocentes e a repressão nazista em The Great Dictator. Contradição presenciada até mesmo na história de um assassino em série (Monsieur Verdoux), curiosamente justificada nas palavras da personagem Verdux no momento em que é acusado de seus crimes, o qual afirma que a Guerra foi muito mais cruel do que ele. A Guerra, de fato, foi muito mais atroz do que aquele humor inteligente.

Criador de Carlitos. Criador da maneira simples de sorrir. Criador de outros clássicos como A King in New York, alusão ao colonialismo inglês e uma perfeita resposta aos americanos ingratos, responsáveis por um macarthismo injusto e o seu consequente exílio em 1953. Por essas épocas, a estranha América já não o tentaria sufocar, tampouco afundar a sua arte. Em 1972 voltou o gênio aos Estados Unidos, onde recebeu um Oscar honorífico por sua incalculável contribuição à indústria cinematográfica. Uma boa forma de redenção dos americanos.

Pelo amor e pela esperança, Chaplin guardou em si um brilhantismo de um poeta humanista, por isso é sempre lembrado, mesmo tendo se passado mais de quatro décadas de seu último trabalho no cinema, A Countess from Hong Kong. É lembrado nos detalhes e na simplicidade de fazer a arte acontecer. Uma prova de que o tempo é seu maior aliado, ao contrário do que ele próprio pensava, pois tinha ele medo desse tempo e do terrível esquecimento.

Chaplin, sempre lembrado como poeta da alegria e da dor, e agora pelos seus inesquecíveis 121 anos.

sábado, 6 de março de 2010

Humanidade: raça prodigiosa

À luz do teatro do absurdo.


Acho que não estamos bem certos sobre o que é a humanidade. Podemos crer que a literatura constata essa desilusão, esse desconhecimento da nossa identidade.

A era do mal do século é a perfeita referência que encontramos e que se estende no hoje através de nossa crise interior. Em sua “Glória Moribunda” nos enxergamos em seres que vibram a própria miséria e amargura. Uma porca miséria! Nunca a entenderemos. É escatológico, é brutal, cruel. Procuramos fortaleza em nós mesmos, mendigamos por respostas onde o vazio habita. Será que nosso grito pode ser tão primordial a ponto de calarmos a devastação, toda a crise que esvazia nossos sentidos?

Ridícula é a humanidade! E ainda bem que existiram (e existe) grandes pensadores (Becket, Ionesco, Arrabal)que souberam expressar a verdadeira consequência dos artifícios do homem em crise : o total desprezo pela lógica. Se eles conseguiram tal feitio foi porque se utilizaram do irracional (ou o que julgaram racional, o que na verdade não era) para tornar à luz o que nos é oculto. Muito da essência do teatro contemporâneo bebe dessa sabedoria e a sua literatura é absurda.

As técnicas dadaístas e surrealistas prezam pela “estranheza” expressiva e pela mostra do onírico, ou pelo que chamavam de “automatismo psíquico”. As técnicas do teatro do absurdo trazem à tona um pouco do dadaísmo e do surrealismo, juntamente a todo desatino das relações pessoais e o ridículo que há no homem. Pois, “o maior delito do homem é o de haver nascido”: são palavras de Samuel Becket (Esperando Godot), um dos maiores dramaturgos dessa corrente. É por isso que, de modo grosseiro, a existência do homem se resume aos problemas. Nossa existência é amarga, uma vez que somos a incerteza e vivemos estressados por não entendermos a ciência da vida, dos problemas. Inúteis!

Posso ver uma humanidade agoniada, depressiva e acuada no tempo e no espaço, sem sequer resolver-se por si. Não sabemos de fato onde estamos. Desconhecemos nossos passos e os rastros são confusos. Voltamos ao mal do século. A inutilidade habita em nós. Será que esse é o nosso único prodígio, reconhecer que somos hostis e que nada sabemos?